- Pela janela


Essa sou eu, sentada na beirada da janela vendo a chuva bater no vidro enquanto tomo um pouco de vinho em um copo qualquer, a última taça eu quebrei ao tacar na porta depois que você simplesmente saiu por ela, e eu até agora não consigo entender o porquê.
Era uma noite fria, e eu já tinha tentado de tudo pra chamar sua atenção, tinha tomado um banho bem demorado, com a esperança de que você invadisse o chuveiro, tinha feito todo o ritual de passar cremes bem ali na sua frente, passei cremes que eu nem sei para que serve e você em nenhum momento se prontificou a me “ajudar”, tinha colocado até aquela camisola que você adora, mas que eu acho bem desconfortável para dormir e você continuou com os olhos fitando a porcaria do programa de tv. Nem mesmo um carinho na nuca com voz manhosa fez você me olhar e depois daí, eu só lembro da taça esmigalhada no chão.
Eu não sei como aconteceu, como foi que a gente se tornou dois estranhos dividindo a mesma cama, só sei que quando eu deitava no seu peito, eu não sentia mais aquele aconchego do início, as vezes parecia que você nem estava ali, o cheiro e a pele continuavam sendo os mesmos, mas o carinho e aquela vontade de ficar ali pra sempre vinham diminuindo dia a dia. Quando nós deitávamos de conchinha e eu fizia de tudo para que meu corpo se encaixasse, era como se esse encaixe não existisse mais, antes era perfeito, agora é como alguma parte estivesse quebrada e o encaixe estivesse ruim.
Antes daquela taça ir parar na porta, eu lembro que tive um surto, eu gritei, eu berrei, apontei o dedo na cara e falei atrocidades, a única coisa que você fazia era me olhar, e isso me enlouqueceu. Você não retrucou, não gritou, não fez nada, ou melhor, você levantou da cama, pegou sua mochila, abriu a gaveta, pegou umas peças de roupa e colocou tudo lá dentro de maneira desorganizada e nervosa, colocou o chinelo, pegou a chave do carro e se foi, sem falar uma única palavra, e eu fiquei ali, olhando para aquela porta sem saber o que fazer. Não sabia se gritava, se corria atrás de você ou se te mandava a merda, tudo que eu consegui fazer foi desabar em choro e tacar a última taça na porta.
Agora eu estou aqui, sentada vendo a chuva sem saber se você vai voltar ou se eu quero que você volte e ainda sem entender como foi que nos tornamos isso. 


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